Quando um novo mundo é descoberto.
Olá e feliz ano novo a todos vocês, queridos leitores.
Após lançar o especial de Natal, do Krampus (https://jnsmultiversoliterario.blogspot.com/2025/12/paladino-invernal-em-um-mundo-de-trevas.html) gostei de escrever fantasia medieval e estou bolando um novo universo de histórias, que estou chamando de Mundo de Vhim'Pryor, onde pretendo contar algumas aventuras e, se possível, tentarei escrever novos livros, mas antes quero ir experimentando através de one-shots, começando com essa.
A história de "O Andarilho da água que caça incêndios" nasceu da minha vontade de fazer uma homenagem dois familiares bombeiros, então imaginei como esses bravos heróis da vida real seriam em um mundo "a la Senhor dos anéis".
Nasceu assim Tsolon, um Andarilho das Águas que deveria ser apenas um suporte para os demais Combatentes do fogo, mas como fazia questão de ser mais ativo quando surgia um incêndio, acabou se desligando da corporação e se tornando o líder de um grupo de aventureiros, os Caçadores das Chamas, que não aguardam ser chamados para combater incêndios, mas seguem pelo continente de Yundhara, atuando ativamente contra todos aqueles que usam o fogo como ameaça à vida.
Essa One-shot tem como objetivo apresentar uma aventura de Tsolon, tentando apresentá-lo para vocês meus queridos leitores, portanto, vamos em frente e...
Boa leitura.
O Andarilho da Água que caça incêndios.
A caverna flamejante.
A entrada da caverna possuía
estalactites e estalagmites que acabavam por formar algo que lembrava a bocarra
aberta de um monstro gigante, o que, por si só, bastava para manter a maioria esmagadora
dos aventureiros longe.
Havia sempre aqueles cuja idiotice
era maior que a prudência, no entanto.
— Então é aqui? Não inspira muita
confiança né?
Falluria, a maga, dava voz ao que se passava
na mente de seus demais companheiros, quando o líder se adiantava, ficando a
poucos metros da sinistra entrada.
— Somos o grupo do herói Gallandror. Não podemos nos amedrontar
com uma simples missão de extermínio de goblins não é?
Dandrya, a arqueira humana, odiava quando o
líder do grupo falava daquela forma, se arrependendo pela décima vez por ter
aceitado se unir a eles.
— Podemos acabar em minutos com esse
ninho, aí voltamos para a cidade, recebemos nosso pagamento e podemos ir
relaxar em uma fonte termal, todos juntinhos.
Enquanto Gallandror fazia uma
expressão excessiva de antecipação, pensando no que poderia fazer com o grupo
de garotas, que ele criara com o único objetivo de formar um harém para o seu
bel prazer.
Seu sorriso beirava o doentio, quando
deu os primeiros passos para dentro da caverna “apenas mais um serviço fácil” ele pensou “depois só diversão”.
Não poderia estar mais errado.
— Como isso é possível?! Eles não
deviam ser só um punhado de goblins fedorentos?
Dandrya arrastava Falluria até uma
reentrância na parede da caverna, tentando se manter longe das flechas, que um
grupo de pequenos monstros verdes ia disparando de forma desleixada.
“Veneno.” foi a conclusão lógica em que a
arqueira chegou, afinal de contas, somente assim para que os goblins nem sequer
se esforçassem para acertar seus alvos em pontos realmente vitais, sendo que a
maga entrara em colapso apenas por causa de um corte de raspão em seu ombro,
onde uma mancha arroxeada ia crescendo.
— Gallandror! O que vamos fazer? Se
não tirarmos a Falluria daqui ela vai morrer.
— E o que você quer que eu faça, sua
desgraçada? — o tom de voz, carregado de raiva e frustração fez a arqueira se
encolher e aumentar o aperto enquanto continuava abraçando a companheira
ferida. — Eu mal escapei quando alguns desses vermes me cercaram e começaram a
soltar fogo das mãos! Fogo das mãos! Desde quando goblins são capazes disso?
— Coisas sem sentido assim tem
acontecido muito.
Sem aviso algum ele surgiu, passando
pelo grupo encurralado, desviando com facilidade todas as flechas que voavam em
sua direção, apenas usando o que pareciam ser esferas de água que flutuavam ao
redor de seus punhos.
A armadura branca, com detalhes em
verde-água, lhe cobria praticamente o corpo todo, deixando à mostra poucas
partes da roupa, aparentemente pesada, que ele usava por baixo.
Estendeu então a mão direita aberta
diante do corpo e uma barreira líquida se colocou entre os aventureiros e os goblins,
dando tempo para que ele se abaixasse e, tomando as mãos da maga nas suas,
imediatamente o corpo dela foi coberto por água.
“Um
Andarilho das Águas?”
Dandrya reconhecera de imediato as habilidades do estranho “Mas eles geralmente são apenas suporte para aventureiros, o que ele
está fazendo aqui sozinho e, ainda por cima, atacando os goblins?”
Primeiro Falluria tossiu e, em
seguida, acabou liberando pela boca uma quantidade generosa de um líquido
escuro e malcheiroso, para só então abrir os olhos e, reconhecendo a colega de
grupo, exibir um tímido sorriso.
O recém-chegado retirou sua capa, de
cor verde azulada, que pareceu emitir um leve brilho e a colocou sobre os
ombros das aventureiras, que começaram a sentir os efeitos de cura que
provinham dela, algo comum a um tipo diferente de aventureiro.
Combatentes
do Fogo. Uma imensa
associação de aventureiros, desde novatos a veteranos, que deixaram de lado a
exploração de masmorras ou outros tipos de batalhas e se juntaram para criar um
só grupo, especializado em enfrentar incêndios, naturais ou não, salvando o
máximo de vidas possível.
O que tornava ainda mais inesperado
encontrar um deles dentro de uma caverna, mesmo que o grupo do herói Gallandror
tivesse acabado de descobrir que não eram simples goblins.
— Por causa no número elevado de
incidentes com monstros que, sem que se saiba o motivo, começaram a apresentar
habilidades ligadas a fogo, o grande comandante Drayvus criou uma nova divisão
dentro dos Combatentes. Sou um dos Caçadores
da Chama, mas isso não importa agora.
Da ponta do pé direito do
recém-chegado um pequeno jorro de água se desprendeu, seguindo pelos corredores
infinitos da caverna.
— Sigam o filete de água e sairão da
caverna, onde meu grupo está esperando para prestar os primeiros cuidados. Eu
precisarei… Mas que diabos?
Interrompendo o raciocínio do
Andarilho, Gallandror já saíra correndo, deixando para trás não apenas seu
salvador, mas também suas companheiras.
— É sério isso?
Balançando a cabeça em negativa,
deixando claro seu descontentamento diante das ações do aventureiro, o
Andarilho então estendeu as duas mãos, fazendo surgir ao lado das garotas uma
criatura feita de água, mas com aparência humanoide, que aguardava as ordens de
seu criador.
“Barreiras
líquidas, magia de cura e agora um golem de água?” a arqueira ficava mais e mais
surpresa a cada habilidade que aquele que as estava ajudando exibia, continuando
a agir como se fosse algo corriqueiro.
— Mas quem é você afinal?
— Pode me chamar de Tsolon. — ele então se voltou para seu
servo. — Leve-as para fora e faça com que recebam os cuidados devidos.
— Mas… — Dandrya teve tempo apenas de
externar uma última dúvida, enquanto o golem erguia as duas garotas nos braços,
seguindo para fora da caverna em seguida. — O que você vai fazer?
— Preciso limpar essa sujeira.
E dizendo isso, enquanto as
aventureiras se afastavam, a arqueira ainda conseguiu ver Tsolon desfazendo a
barreira e caminhando calmamente na direção dos goblins flamejantes.
Os primeiros a atacar foram aqueles
que possuíam arcos rudimentares, mas, estando sob um feitiço de alto nível,
acabavam por disparar flechas de fogo, o que não os deixava ilesos.
O Andarilho reparou que as pontas dos
dedos de cada um apresentavam marcas negras de queimaduras sérias.
Os urros de dor, que acompanhavam cada
disparo, também deixaram claro que uma verdadeira maldição era a responsável
por aquele efeito terrível nos goblins.
— Bem monstrinhos, se podem usar armas
assim e não apenas paus e pedras, pode ser que entendam a língua geral do
continente de Yundhara, por isso...
— ele ergueu os punhos cerrados, com esferas de água que cresciam e flutuavam
ao redor de cada um. — Podemos encerrar isso de forma indolor...
Antes dele encerrar a frase, várias
flechas foram disparadas, deixando um rastro de fumaça, produzido pelas pontas
incandescentes.
Enfrentar, desviar e até mesmo acertar
vários projéteis fora um dos treinos mais básicos que ele recebera ainda na
infância, por isso, ele se esquivou das primeiras flechas, praticamente
deslizando pelo chão da caverna, uma vez que seus pés produziam um tipo de sola
líquida, ajudando em sua movimentação.
Mas ele não ficou apenas nisso, pois
também acertou a lateral de algumas com os punhos, enquanto que a última flecha
ele apenas segurou bem na ponta de fogo.
Um som de chiado tomou o ar da
caverna, conforme ele apagava a chama, para logo depois descartar o projétil e
só então encurvar o corpo, como se estivesse se preparando para uma corrida.
— Tudo bem. Vai ser da forma divertida
então. — fechando brevemente os olhos ele sussurrou para si mesmo o mantra que
aprendera a tantos anos. — Mente
Plácida, Poderosa, Paciente.
Uma imensa poça de água se formou
abaixo de Tsolon e assim que ele avançou e deu um passo, um pisão na água, na
verdade, foi como se uma imensa pedra fosse jogada, causando jorros e respingos
para todos os lados, o que chamou a atenção dos goblins por apenas alguns
segundos.
Tempo mais que suficiente.
Assim que as criaturas tentaram voltar
seus olhares para o invasor de seu ninho, ele já não estava lá, na verdade, o
Andarilho das águas já cobrira os metros que o separava de seus alvos e se
encontrava entre as dezenas de goblins que, pegos de surpresa, não tiveram
reação.
Os primeiros a serem abatidos tiveram
seus rostos de narizes grandes agarrados e cobertos por esferas de água,
fazendo com que caíssem no chão, as mãos sobre suas gargantas, tentando
desesperadamente respirar.
Morrer afogados dentro de uma caverna
que, até aquele momento, estava seca, com certeza seriam as mortes mais
estranhas já vistas em toda história dos pequenos monstros.
Ainda em meio a uma pequena multidão
de goblins, o Andarilho não diminuía o ritmo dos golpes, sem usar nenhum tipo
de arma, apenas com seu controle sobre as águas, ele seguia distribuindo golpes
que causavam sérias contusões devido ao impacto, como também cortes profundos,
enquanto ele alterava as formas do líquido que cercava seus punhos.
Um dos monstros, esse aparentando um
pouco mais de inteligência que os demais, se afastou da batalha, partindo
rápido por uma passagem escondida entre alguns túneis escondidos entre as
reentrâncias naturais da caverna, escavados de forma artificial, o que deixava
claro que aquele ninho devia possuir alguma outra criatura que estava no
comando e que devia possuir algo muito perigoso.
Inteligência.
Dessa forma o caminho mais prudente
era encerrar logo aquele primeiro combate e se preparar para o que mais poderia
vir em seguida.
— Não tem jeito. É cansativo, mas é a
melhor saída.
Ele se concentrou outra vez, juntou as
mãos, deixando encostadas as pontas dos dedos indicativos, anelares e dos
polegares, enquanto os demais permaneciam dobrados.
Assim que Tsolon estendeu as duas mãos
espalmadas diante do corpo, água começou a brotar do chão da caverna, sob os
pés dos últimos goblins que ainda estavam em condições de lutar e logo um
poderoso jorro de água se ergueu até o teto daquele corredor.
Tanto o Andarilho quanto seus inimigos
ficaram totalmente cobertos pela água, por exatos dez minutos e quando a coluna
líquida se desfez, todos os monstros jaziam no chão, afogados, enquanto Tsolon
permanecia completamente seco.
Após uma rápida olhada ao redor e
tendo assim a certeza de que não havia sobrado nenhum dos inimigos vivos, ele
se voltou para o local por onde um dos goblins havia escapado.
Esperar ou avançar eram as únicas
opções.
— Nunca fui muito paciente mesmo.
Dessa forma, tentando se colocar à
frente dos inimigos e com precaução máxima, caminhando lentamente, ele
pretendia estar preparado para tudo, por isso ia apurando ao máximo seus
sentidos, conforme a luz de sua tocha mal iluminava poucos metros ao seu redor.
Tamanho cuidado se mostrou até inútil,
uma vez que Tsolon conseguiu avançar sem nenhum problema, ao menos até chegar a
um imenso salão, esculpido naturalmente dentro da montanha e, com certeza, onde
todos os túneis se interligavam.
"É
tão óbvio que isso é uma armadilha que chega a doer."
— Vamos monstrinhos! Saiam de onde
estiverem e venham me enfrentar!
Tendo seu ardil descoberto e sem
motivos para se manterem escondidos, pouco a pouco, por todas as entradas
daquele salão, iam entrando dezenas de goblins, com diversas armas, ou mesmo
desarmados, mas todos exibindo pequenas faíscas, mostrando que todos haviam
recebido a mesma maldição flamejante, em poucos minutos Tsolon logo se viu
completamente cercado.
Novamente ele assumiu uma postura de
combate, água começando a formar esferas ao redor de seus punhos e uma imensa
poça sob seus pés, o rapaz já tentava prever de onde viriam os primeiros
ataques.
O que acabou por surpreendê-lo é que
cada um dos goblins, conforme foram chegando ao salão, apenas iam se colocando
lado a lado e, quando finalmente parecia que todos do ninho estavam lá,
começaram a bater no chão armas, pedras, paus e tudo o que conseguiam agarrar
com suas garras, num ritmo cadenciado que não combinava com nada que já fora
registrado antes pelos estudiosos de Yundhara.
A razão logo se mostrou quando duas
pesadas portas de pedra, com imenso estardalhaço, se abriram, suas bases
arrastando e levantando nuvens de poeira, dando passagem para uma imensa
criatura que trajava uma colcha de retalhos de peças de armaduras variadas,
provavelmente tomadas de outros aventureiros que ousaram entrar naquele ninho.
"Todos
mortos, aposto."
O pensamento reforçou a raiva
crescente no peito do Andarilho da Água, que prometera a si mesmo que faria
tudo ao seu alcance para encerrar aquela ameaça o quanto antes e de forma
definitiva.
Com uma sequência de movimentos das
mãos esverdeadas, o aparente líder daquele bando conseguiu recriar uma das
magias que deveriam ser de uso exclusivo dos humanos.
Bola de fogo.
As chamas avançaram rápido, ao som dos
gritos de animação de todos os goblins presentes, empolgados ao ver seu mestre
vencendo e matando outro aventureiro que ousara entrar em seus domínios.
Nada disso pareceu abalar Tsolon, que
permanecia parado no lugar onde estava, mas a verdade era outra.
Ele estava paralisado.
A visão do fogo vindo em sua direção
disparou uma série de gatilhos em sua mente, os ouvidos foram inundados por
gritos de terror, imagens de corpos sendo queimados até a morte, silhuetas
enegrecidas em meio ao brilho avermelhado e dourado fizeram seus olhos
lacrimejarem, o cheiro de carne queimada tomou seu nariz, o que quase o fez
vomitar dentro do elmo.
"Mente
Plácida, Poderosa, Paciente... E IMPREVISÍVEL!"
O grito veio direto de seu passado,
fazendo-o acordar no exato instante em que seria atingido, tendo tempo apenas
de afastar o corpo para o lado, de forma rápida suficiente para ter apenas
partes da lateral direta de sua armadura chamuscadas pelas chamas.
Enquanto todos os expectadores emitiam
urros de incredulidade pelo ataque falho de seu líder, o Andarilho balançou sua
cabeça com força, além de dar alguns socos no alto do elmo, o som de metal
contra metal ressoando pelo lado de dentro.
— Tudo bem. Agora acordei! Já demorei
demais também, por isso, desculpem, monstrinhos, mas preciso terminar logo
isso!
"E
terminar antes que o pessoal resolva vir atrás de mim."
Com essa nova determinação em mente,
Tsolon se concentrou, formou uma imensa poça de água sob seus pés e, assim como
havia feito antes, ao dar o primeiro passo na direção do líder daquele ninho, a
água se espalhou e, ao se mover absurdamente rápido, foi como se ele tivesse
desaparecido.
Pouco mais de um segundo depois, o
punho do Andarilho que, além do reforço da sua manopla de metal, exibia também
uma esfera de água ao redor, praticamente explodiu contra a cabeça do líder dos
goblins, fazendo seu capacete voar para longe e revelando sua verdadeira
identidade.
Um Genasi que, normalmente seria apenas uma criatura humanoide que
apresenta afinidade com o fogo, mas que, graças a algum fator recente e
desconhecido, revelaram um crescente e preocupante controle de chamas tidas
como infernais, exibindo um sem número de novas habilidades.
Todas elas voltadas para o mal.
Dominar um ninho de goblins, matar
todos e fazer com que espíritos infernais tomassem seus corpos, para poder
pegar de surpresa e matar aventureiros, era algo que faria um Genasi, ou um Kasthru'rul, como foram renomeados
pelos líderes dos Combatente de Fogo.
— Só podia ser um de vocês, seu
desgraçado. — Tsolon então ergueu os braços, se voltando para todos os
expectadores. — Mostrem suas verdadeiras faces!
E então a verdade veio à tona.
Os goblins começaram a se contorcer,
os corpos pouco a pouco iam exibindo grotescas alterações, pele derretendo,
ossos se quebrando e assumindo novas configurações, pequenos focos de chamas
irrompendo aqui e ali.
Em instantes o Andarilho estava
cercado por pequenos Rogrus, seres
possuídos pelo fogo amaldiçoado de um Kasthru'rul, todos prontos para se lançar
ao ataque, mas apenas um movimento de seu líder e criador, que ergueu a mão
direita espalmada, fez com que voltassem a aguardar.
— Se sabe quem sou, sabe também que é
apenas uma questão de tempo até que eu faça esse meu exército crescer a ponto
de podermos levar a pureza das chamas para o mundo humano, não é?
— Esses goblins, ou melhor, esses
rogrus ao nosso redor são todo o exército que você criou a partir desse ninho?
— Está amedrontado, não é? Mais de mil
servos são os que estão sob meu controle nesse momento, prontos para invadir os
reinos mais próximos e então aumentar nossos números, seguindo assim como uma
onda infernal de terror que se espalhará por todo esse continente.
— Mas estão todos aqui mesmo? Todos,
“todinhos”?
— O medo embotou seu raciocínio?
Quando digo que todo o meu exército está aqui é exatamente isso que quero
dizer. Nós marcharemos por esse reino e…
— Não, não, eu já entendi essa sua
imensa ameaça e tudo. Eu só queria ter certeza, para que não precisasse ficar
andando por aí procurando mais monstros. Isso ia ser entediante demais, mas já
que você está me garantindo que estão todos aqui, não tem porque me conter.
— Agora entendo, tal demonstração de
poder o enlouqueceu. Não se preocupe, pois assim que eu tomar seu corpo e
transformá-lo em meu escravo, o que sobrar de seu coração nunca mais conhecerá
o medo.
— Tá, tá, agora só cala a boca, por
favor. Preciso me concentrar.
Tal resposta atravessada pegou não
apenas o Kasthru'rul de surpresa, mas também todos os demais servos que agora
nem faziam mais estardalhaço, apenas observando o Andarilho das Águas, que se
mantinha parado, sem mover um músculo, um claro sinal de medo, todos os
presentes imaginaram.
Não podiam estar mais errados.
— Pai, guia minha mão. Nen… — diante
do olho direito do elmo surgiu um pequeno filete de água que apresentavas
graciosos movimentos, seguido de esferas disformes que fluíam ao redor dos
punhos do andarilho. — Garth!
Nen-Garth.
Também conhecido como Expansão
violenta das águas enfurecidas, pelo menos foi assim que seu pai chamara,
quando ensinou essa técnica a seu filho.
Ao terminar o comando vocal de um de
seus mais poderosos golpes, foi como se um uma represa se rompesse de repente,
causando uma explosão líquida que, primeiro formou um pilar ao redor de Tsolon,
indo do chão ao teto do salão cavernoso e, antes que os monstros presentes
pudesse começar a entender o que estava acontecendo, a água se expandiu
violentamente.
Bastou alguns segundos para que, não
apenas aquele salão, mas todas as cavernas adjacentes e interligadas estivessem
inundadas, fazendo com que tanto o Kasthru'rul quanto todos os rogrus acabassem
afogados e com suas chamas apagadas.
Ainda assim o Andarilho, que
permanecia seco e em segurança dentro de um espaço esférico, em meio às águas
turbulentas, onde agora boiavam dezenas de corpos do que outrora foram simples
goblins, decidiu manter o Nen-Garth por mais meia hora antes de finalmente o
desfazer.
Como sempre, usar tal poder extinguia
as forças do jovem, que quase seguiu se arrastando para o lado de fora do
ninho, onde fora saudado por um grupo extremamente heterogêneo, formado por uma
elfa, um anão sem barba, uma centaura e alguns humanos, um com trajes típicos
de um necromante e uma garota com roupas clericais.
— Exagerou de novo né? — a primeira ao
alcançar o companheiro foi a elfa. — E nem vem mentir que dá pra ver nessa sua
cara de acabado que você foi além dos limites de novo.
— Qualquer dia eu vou ter que te
trazer de volta da morte, seu irresponsável.
— E essas marcas de queimado na
armadura? Maldição! Se meu tio das Minas Kothral visse isso ia morrer do
coração! E lá vem mais trabalho pra mim.
— Qualé gente. Tenham um pouco de
compaixão para com um galante herói que destruiu um ninho gigante de rogrus e
até um poderoso Kasthru'rul, poxa. Tô acabado.
— Acabado você está sempre. Já
galante?
Perto de onde o grupo discutia
animadamente e ria da piada feita pela centaura, dentro de uma carruagem, a
arqueira Dandrya permanecia ao lado de Falluria, sua amiga envenenada e mantida
desacordada, ao menos até alcançarem o mais próximo templo de cura, enquanto o
covarde “herói” Gallandror ficava num canto mais afastado encolhido em sua
vergonha.
— Nunca vi um grupo de aventureiros
tão estranho.
— Minha querida.
A frase repentina, vinda das costas da
arqueira a fez se sobressaltar.
— Peço desculpas pela furtividade, mas
se está estranhando tanto assim esse garboso e heroico grupo, deixe-me lhe
contar uma história.
— Que susto! Quem é você? Parece que
brotou do chão!
— Ele costuma fazer isso com
frequência, peço desculpas por ele.
O Andarilho da água se aproximou da
carruagem para conferir como estavam os aventureiros que salvara do ninho, ao
lado dele o restante do grupo vinha em meio de um bate papo animado.
— Tsolon! Não fale assim desse pobre e
simplório bardo que vive apenas para difundir e espalhar pelos oito ventos a
vossa história.
— Se quiser contar algo, sugiro que
sente logo com a jovem arqueira, pois não podemos mais perder tempo. Estou
preocupado com a maga. Caçadores de Fogo! Hora de seguir viagem!
Enquanto o anão assumia a condução da
carruagem, os demais membros do grupo de espalharam em montarias ainda mais
exóticas que eles e, em instantes, todos seguiam viagem para o norte.
— Pois bem minha jovem, peço que se
sente de forma confortável, pois a viagem é até longa, mas tentarei aplacar o
enfado que possa sentir com minha história favorita, a história de "Tsolon, o Andarilho da Água que caça
incêndios."
E assim a lenda tem início.



2 Comentários
Esse texto é um excelente exemplo de como apresentar um herói sem precisar anunciá-lo como tal. Tsolon não aparece em cena para ser admirado, ele vem pra resolver um problema, e isso muda completamente o peso emocional da narrativa. O contraste inicial com Gallandror é muito bem construído, não é só covardia versus coragem: é vaidade vazia versus responsabilidade silenciosa, tendo ainda o sorriso doentio, o discurso de “missão fácil” e o abandono do grupo, que criam um desconforto proposital que prepara o terreno para a entrada de Tsolon. Quando ele surge, não há pose, não há arrogância, há ação imediata, cuidado com os feridos e prioridade absoluta à vida, e isso de cara, já define caráter antes de definir seus poderes. A escolha de fazer dele um Andarilho da Água ligado aos Combatentes do Fogo é brilhante em termos temáticos, a água aqui não é apenas elemento, é antítese direta do trauma, da maldição e da corrupção, e o texto ainda é muito feliz em mostrar que esse domínio não é “limpo” emocionalmente. O momento em que Tsolon paralisa diante da bola de fogo é um dos pontos mais fortes do capítulo: o herói não é imune ao passado, ele carrega cicatrizes reais, gatilhos, memórias sensoriais, cheiro, gritos, imagens, tudo muito bem dosado, sem exageros de descrição, mas com impacto psicológico bem forte. O mantra — Mente Plácida, Poderosa, Paciente… e Imprevisível — funciona quase como uma assinatura espiritual do personagem, ele não é apenas técnica; é disciplina emocional aprendida com dor, e quando o "Nen-Garth" (outra nome muito bem bolado) é finalmente liberado, não soa como fanservice de poder, mas como decisão extrema, cansativa, perigosa, tomada porque não há outra saída segura, apesar dele não deixar nada disso transparecer. O detalhe de ele manter a técnica ativa por mais tempo do que o necessário reforça esse traço, Tsolon, como marca regisrada de teus heróis, prefere o esgotamento pessoal à chance de deixar o mal sobreviver. Outro acerto enorme é a revelação do Kasthru’rul e a transformação dos goblins, isso tira a história do lugar-comum de “extermínio de monstros” e coloca o conflito em um patamar maior, quase investigativo, existe algo errado no mundo, e Tsolon está no meio disso não por glória, mas porque alguém precisa estar, porque foi uma decisão de vida dele mesmo. E o fechamento é simplesmente delicioso, o grupo heterogêneo, os diálogos leves, a ironia afetuosa, o bardo surgindo quase como uma entidade narrativa, RPG puro na veia… Tudo isso humaniza o pós-combate e quebra a tensão sem quebrar o clima, a lenda nasce não de um feito isolado, mas do olhar de quem observa alguém que age certo quando ninguém está aplaudindo. No fim, o que mais marca é que Tsolon não caça incêndios apenas no sentido literal, ele apaga focos de destruição antes que se tornem tragédias maiores, mesmo que isso custe seu próprio corpo, suas forças, ou o obrigue a reviver dores antigas, é um herói que não quer ser mito, e justamente por isso acaba se tornando um. Um início de lenda extremamente sólido, com identidade própria, tensão emocional real e um protagonista que dá vontade de acompanhar por muitos caminhos ainda, sem dúvida alguma, no estilo das melhores criações que tu já fez, meus parabéns!
ResponderExcluirPS.: Demorei, mas foi maravilhoso ler esse texto, muito bom Norb, parabéns mesmo!! \0/
Meu amigão! Que felicidade e que comentário revigorante! Obrigado demais pela leitura e por me dar tanta força!
ExcluirSua análise foi perfeita.
De fato, estou tentando desenvolver um novo livro focado no Tsolon, quero tentar iniciar com ele ainda jovem e mostar como ele se tornou um Caçador de Chamas, mas assim que terminei o primeiro capítulo, senti necessidade de fazer algo com ele que já mostrasse ele em plena atividade e então surgiu a ideia desse Oneshot que me deixou bem satisfeito e com novas ideias.
Eu realmente queria ressaltar a diferença do Tsolon e do Gallandror e precisava de um começo que desse a ideia do nível da ameaça, dai aproveitei para fazer algo próximo do que fizeram no manga Goblin Slayer e, pelo visto, deve ter ficado bom.
E como você destacou é um personagem que eu tipicamente faço, mas me sinto tão à vontade escrevendo-o que atualmente está dificil de mudar, mas estou trabalhando nisso, pois no momento, além de planejar os primeiros capítulos do livro dele, estou desenvolvendo outras one shots, com outros personagens, que se passarão no mesmo mundo dessa história.
Voltando ao Tsolon eu quis realmente dar algumas camadas, por isso o momento de congelamento diante do fogo e o posterior fato de manter o Nen-Garth por mais tempo, que ajudam a deixar o personagem mais complexo e me dão opções do que apresentar lá na frente,
A ameaça do Kasthru’rul tbm foi pensada para ganhar mais "corpo" no futuro e aumentar o escopo das ameaças que atingirão o protagonista.
quanto ao grupo do final, eu tentei manter eles o mais "anônimos" possível, mas com pinceladas de como são no momento dessa história, novamente, me preparando para, no futuro, serem apresentados devidamente e mostrarei como o grupo em si ficou dessa forma e só então até nomes eles vão ganhar.
Valeu mesmo, de coração, mais uma vez, pelo tempo investido na leitura dessa história, pelo comentário empolgante e pela força e amizade de sempre.